Glashutte-Capa1

A Suíça é o principal país lembrado ao se falar de relógios finos, tanto pela sua tradição secular na fabricação de relógios, quanto pela qualidade de seus produtos.

Porém, há outra região também tradicional na arte da relojoaria, localizada na Alemanha – trata-se de Glashütte.

Este pequeno vilarejo, com aproximadamente 7.400 habitantes e situado a 30km ao sul de Dresden, próximo à fronteira com a República Checa, é considerado um dos mais importantes centros da relojoaria alemã, possuindo mais de 165 anos de tradição. Seu desenvolvimento foi marcado por diversas intempéries, acompanhando a conturbada história da Alemanha, incluindo passagem pelas duas Grandes Guerras Mundiais e pelo regime comunista.

Apresentaremos neste post um pouco da história do desenvolvimento da relojoaria nesta região.

A REGIÃO DE GLASHÜTTE

Situado no estado livre da Saxônia, no distrito de Sächsische Schweiz-Osterzgebirge, Glashütte é uma pequena cidade com colinas de encostas íngremes e arborizadas, e um córrego rochoso que flui através de seu estreito vale. Alguns dizem que este cenário lembra muito o Vallée de Joux, em Genebra, conhecida também como o “Vale dos Relojoeiros”, no coração da principal região relojoeira suíça.

Embora distantes geograficamente, há muitas ligações entre esta pequena cidade e seus colegas relojoeiros da Suíça. Uma delas é que, atualmente, duas das mais prestigiadas marcas de relógios da Alemanha e sediadas no vilarejo são atualmente de propriedade suíça – a A. Lange & Söhne e a Glashütte Original.

A A. Lange & Söhne pertence ao grupo Richemont, que comprou a marca como parte da tripla aquisição realizada no ano de 2000, que incluiu também as marcas IWC e Jaeger-LeCoultre. Já a Glashütte Original e também a Union Glashütte, outra famosa marca da região e localizadas na rua de trás, fazem parte do Grupo Swatch.

A A. Lange & Söhne, atualmente com 470 funcionários, e a Glashütte Original com 320 funcionários, encontram-se em plena expansão. Os relógios da A. Lange & Söhne, conhecidos pelo seu design clássico e artesanato meticuloso, disputam com Patek Philippe e outras das mais caras marcas a preferência dos aficionados por relógios.

A Glashütte Original se enquadra em um nível imediatamente abaixo, ocupando a mesma categoria premium das marcas Breguet e Blancpain, do grupo Swatch. A Union Glashütte, ocupa a mesma categoria “média alta”, assim como as marcas Rado e Longines. Assim como estas duas marcas irmãs do grupo Swatch, a Union Glashütte também é atualmente fabricada na Suíça, utilizando os movimentos do grupo ETA.

Porém, as ligações de Glashutte com a Suíça são muito mais profundas do que as recentes aquisições de empresas ou de fornecimento de peças. Ela se iniciou há mais de 165 anos, com Ferdinand Adolph Lange (1815-1875) e sua viagem à Suíça.

A ORIGEM DA RELOJOARIA EM GLASHÜTTE – FERDINAND ADOLPH LANGE

A história de Glashütte está intimamente ligada à Ferdinand Adolph Lange. Este relojoeiro graduou-se na Dresden Technical Training Institute, onde foi discípulo de Johann Christian Friedrich Gutkaes, relojoeiro oficial da corte real em Dresden, um dos berços da relojoaria alemã. Posteriormente, Lange casou com a filha de Gutkaes, Antonia.

Ferdinand Adolph Lange

Ferdinand Adolph Lange

Esta escola, conhecida hoje como Dresden University of Technology e fundada em 1 de maio de 1828, surgiu sob a luz da crescente industrialização, com o objetivo de formar trabalhadores especializados em campos como a mecânica, engenharia mecânica e construção de navios.

Nesta escola, também estudaram Moritz Grossmann (1826-1885) e Adolf Schneider (1824-1878). Eles se estabeleceriam posteriormente em Glashütte, onde, junto à F. A. Lange, fundariam as bases para a fama desta cidade na fabricação de relógios, e também se dedicariam à educação e treinamento de futuras gerações de relojoeiros.

Moritz Grossmann

Moritz Grossmann

Após terminar seus estudos em Dresden, em 1837, F. A. Lange viajou durante 4 anos, passando pela Suiça e  França, aperfeiçoando-se na arte da relojoaria. Na França, estudou na Sorbonne, e também, com o relojoeiro Joseph Thaddäus Winnerl (1799-1836), um pupilo de Abraham Louis Breguet.

Em sua passagem pela Suíça, Lange dedicou-se ao aprendizado do particular método utilizado no Vallée de Joux, também conhecido como Verlagssystem, ou também, Putting Out ou Workshop System. Este método consiste em um sistema de fornecimento, no qual os relojoeiros obtém seus componentes de diferentes empresas fornecedoras, cada uma especializada em um determinado componente, ferramenta ou instrumento de medida. A cadeia de montagem de um relógio envolvia cerca de 15 a 18 especialistas, e o relógio montado a partir dos componentes dos diversos fornecedores era então vendido pelo relojoeiro que os encomendou.

Com a experiência adquirida em sua viagem, Lange retornou à Dresden por volta de 1841, com um plano de construir uma indústria relojoeira em sua terra natal, baseada no modelo suíço. Para realizar este sonho, Lange convenceu a Corte do então independente reino da Saxônia para investir em seu projeto, escolhendo a pequena cidade de Glashütte como o berço de seu projeto.

Este pequeno e isolado vilarejo, rodeado de colinas ricas em prata e minério de ferro, originou-se da exploração destas riquezas nas chamadas Montanhas de Minérios (Erzgebirge). A vocação mineradora desta cidade se reflete em seu nome, derivado da denominação dada ao processo de fundição de prata em barracas – Glazes Hütten. As riquezas extraídas de seu solo ajudaram a fortalecer o poder da corte saxônica em Dresden.

Com o declínio da mineração no século XIX, Glashütte precisava desesperadamente de uma nova alternativa, e a proposta de Lange parecia ser a solução. Em um dos primeiros exemplos de investimento com subsídio governamental, Lange convenceu os governantes saxões a fornecerem empréstimos de longo prazo a juros baixos para financiar a transformação de Glashütte, obtendo 5.580 thalers (a moeda saxã), que deveriam ser reembolsados em sete prestações entre 1848 e 1854, e destinados a contratação e treinamento de 15 aprendizes. Além disto, Lange também recebeu 1.120 thalers para aquisição de ferramentas e equipamentos.

A ASCENSÃO DA INDÚSTRIA RELOJOEIRA NO VILAREJO

O dia 7 de dezembro de 1845 é considerado o nascimento da indústria relojoeira em Glashütte. Nesta data, Ferdinand Adolph Lange e seu colega Adolf Schneider iniciaram o treinamento de seus 15 primeiros aprendizes. Para garantir a qualidade de fabricação, cada um destes aprendizes se especializou e se tornou responsável por um passo específico no processo de montagem de um relógio. Isto reduziu substancialmente a margem de erro, e também otimizou o processo.

Após 3 anos, estes aprendizes concluíram seus estudos e passaram a produzir e fornecer os componentes de relógios para Lange. Para pagar pelo seu aprendizado e ferramental utilizado, estes aprendizes tiveram que trabalhar exclusivamente para Lange por pelo menos 5 anos, recebendo um salário semanal de 3 a 6 thalers, e tornando-se independentes após este período.

Lange e seus aprendizes

Lange e seus aprendizes

Lange também obteve apoio em seu projeto de alguns relojoeiros importantes de sua época, como Ernest Kasiske e Ludwig Strasser, que ingressaram na empresa e auxiliaram na criação do famoso relógio de bolso de precisão Glashütte, que posteriormente, ganharia fama mundial. As instalações originais da fábrica fundada por Lange estão preservadas até hoje no pequeno e charmoso vilarejo, e  ainda podem ser visitadas.

O isolamento de Glashütte resultou em uma forte integração vertical entre os relojoeiros locais – assim como acontece com seus colegas suíços. A tradição mineradora forneceu habilidades técnicas e de engenharia essenciais, com cada uma das marcas sendo uma verdadeira manufatura, produzindo a maior parte de seus componentes.

Interessante também citar que Lange foi o primeiro relojoeiro na Europa a usar o sistema métrico, ao invés do antigo sistema Parisiense – o milímetro como unidade básica de medida simplificou os cálculos. Somente em 1858, o governo da Saxônia introduziria oficialmente o sistema métrico.

Em 1851, Ferdinand Adolph Lange exibiu seus relógios pela primeira vez na exibição mundial de Londres, e retornou para Glashütte com muitas encomendas. Seus relógios precisos encontraram muitos interessados, principalmente na Inglaterra e América do Norte. Enquanto o vilarejo se mantinha isolado do mundo exterior, seus relógios adquiriam cada vez mais visibilidade no palco internacional, levando o nome Glashütte para o mundo.

Com o passar do tempo, e assim como os termos vidros de Murano e “Swiss Made”, o termo “Glashütte” surgiu como um sinônimo de qualidade. Até hoje, há uma regra não escrita que determina que mais da metade do valor do relógio deve ser produzido localmente para poder ostentar a palavra “Glashütte” em seu mostrador.

Segundo as palavras de Ulrike Kranz, da Glashütte Original:

No auge do império alemão, os relógios do vilarejo eram sinônimo de qualidade, luxo e sofisticação mecânica

Em 1854, Carl Moritz Grossmann, após ter trabalhado em diversos centros relojoeiros na Suíça (La Chaux-de Fonds), Inglaterra, França, Dinamarca e Suécia, resolveu estabelecer-se em Glashütte, especializando-se na fabricação de ferramentas. No ano seguinte, em 1855, Adolf Schneider também fundou sua própria companhia relojoeira.

Calibre de Adolf Schneider

Calibre produzido por Adolf Schneider

Grossmann desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de relógios de precisão de pêndulo e cronômetros, destacando-se o aperfeiçoamento do escapamento de detenção por pivô.

Em 1874, Johannes Dürrstein (1845-1901) fundou em Dresden a Dürrstein & Company, uma empresa revendedora de relógios. Posteriormente, percebendo que nem todos poderiam pagar pelos relógios de alta qualidade produzidos pela Glashütte, trabalhou com Lange no desenvolvimento de relógios de bolso a preços mais baratos, com o objetivo de disseminar este produto. Deste projeto, surgiram os relógios “Deutsche Uherfabrikation – DUF” (relógio manufaturado alemão). Enquanto trabalharam juntos, Lange vendeu 2/3 de sua produção para Dürrstein.

Relógio DUF, fabricado pela A. Lange & Söhne, e revendido por Dürrstein & Company

Relógio DUF, fabricado pela A. Lange & Söhne, e revendido por Dürrstein & Company

Após a morte de Ferdinand Adolph Lange em 1875, os seus filhos,Emil e Richard Lange, mantiveram a empresa do pai (A. Lange & Söhne, cuja tradução seria A. Lange e Filhos), primando pela qualidade de seus produtos, que mantiveram a designação “1A” de qualidade.

Emil e Richard Lange

Emil e Richard Lange

Em 01 de maio de 1878, Moritz Grossmann, fundou a Deutsche Uhrmacherschule Glashütte (a “Escola de Relojoaria Alemã de Glashütte”). Em decorrência disto, Glashütte ganhou ainda mais notoriedade na produção de relógios mecânicos tradicionais de alta qualidade e, ainda assim, inovadores.

Escola de Relojoaria em 1885

Escola de Relojoaria Alemã de Glashütte em 1885

Em 1893, Dürrstein começou sua própria fábrica de relógios, a Glashütter Uhrenfabrik UNION, com o objetivo de criar relógios de qualidade, a preços acessíveis, através do uso de metais não preciosos, enquanto mantinha sua renomada precisão.

A relojoaria de Glashütte prosperou nos anos seguintes.

No início de 1916, Karl W. Höhnel marcou um de seus relógios de pêndulo, pela primeira vez, com a frase “Original Glashütte”, mais tarde, incorporada pela DPUG, que falaremos adiante.

AS GRANDES GUERRAS E O CENÁRIO RELOJOEIRO

A relojoaria desta cidade sobreviveu a duas guerras mundiais e à hiperinflação de Weimar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, apesar das dificuldades, a relojoaria de Glashütte continuou a prosperar. Em 1918, fundou-se a Deutsche Präzisions-Uhrenfabrik Glashütte e.G.m.b.H., ou DPUG (Fábrica Alemã de Relógios de Precisão Glashütte), com o objetivo de tirar vantagem da produção coletiva para produzir relógios de bolso de forma mais econômica possível. 

A DPUG registrou em 09/11/1918 a marca “Glashütte Original”, e a partir de 1921, seus relógios de bolso passaram a vir gravados com esta marca em seu mostrador, permitindo diferenciar os produtos de qualidade produzidos em Glashütte das imitações (como System Glashütte).

Relógio DPUG

Relógio de bolso fabricado pela DPUG

Em 1920, Alfred Heiwig, professor da escola de relojoaria de Glashütte, desenvolveu o Flying Tourbillon. Nesta inovação, a visão do turbilhão é limpa, e parecia voar. Além disto, esta construção obteve a melhor taxa de precisão para relógios de precisão portáteis na época.

Relógio Glashütte Original, com o famoso Flying Tourbillon

Relógio Glashütte Original, com o famoso Flying Tourbillon

Porém, após o término da Primeira Grande Guerra, o cenário mudou drasticamente. Em 1926, o mundo estava em crise, e a inflação atingia níveis catastróficos. O antes próspero mercado de relógios agora passava por uma crise. Como agravante, a região demorou para notar a tendência de migração dos relógios de bolso para os relógios de pulso, o que piorou a situação.

Com o objetivo de conter um colapso iminente da produção de relógios, as antigas oficinas se uniram em cooperativas, através do financiamento fornecido pelo Giro Zentrale Sachsen (Banco Central da Saxônia). Com isto, surgiram duas novas companhias – a “Deutsche Uhren-Rohwerkefabrik Glashütte” (Urofa), para produção dos movimentos, e a “Uhrenfabrik Glashütte AG” (Ufag), para fabricar relógios. A Urofa foi a primeira empresa de Glashütte que produziu seu próprio relógio de pulso, e também, o conhecido calibre 58. A região conseguiu sobreviver vendendo seus relógios para militares.

Calibre 58, fabricado pela Urofa

Calibre 58, fabricado pela Urofa

A Segunda Guerra Mundial também trouxe importante repercussão ao vilarejo. Em 8 de maio de 1945, poucos meses após bombardearem Dresden, e um pouco antes do término da guerra, os aviões soviéticos bombardearam a cidade de Glashütte. Muitas fábricas de relógio foram parcialmente destruídas. As que se mantiveram em condições de trabalho foram fechadas, e tiveram todos seus equipamentos e maquinários confiscados pelas autoridades militares soviéticas. A cortina de ferro se baixou sobre a região.

GLASHÜTTE SOB O DOMÍNIO SOCIALISTA

Em 01 de julho de 1951, as empresas ainda existentes em Glashütte, como A. Lange & Söhne, Urofa e Ufag, Gössel & Co e a R. Mühle & Sohn foram fundidas sob uma única marca: VEB Glashütter UhrenbetriebeGUB (Fabrica de Relógios VEB Glashütte). A antiga produção de relógios de precisão e de luxo agora era voltada ao público em geral. Isto forçou os relojoeiros de luxo de Glashütte a realizar um “downmarketing”. Mesmo assim, seus produtos rapidamente se tornaram sinônimo de confiabilidade e robustez.

Relógio GUB, fabricado em Glashütte

Relógio GUB, fabricado em Glashütte

A GUB chegou a ter 2.500 funcionários (mais da metade da população do vilarejo na época), produzindo cerca de 1 milhão de relógios por ano. Esta empresa criou uma vasta variedade de relógios de pulso e dispositivos, inicialmente para países do bloco oriental e para o mercado local. O interessante é que milhares de alemães ocidentais e europeus orientais possuem relógios Glashütte, mas não tinham ideia de sua origem.

Quando a Alemanha foi dividida após a Segunda Guerra Mundial, o governo da Alemanha Oriental (República Democrática Alemã – RDA) estava cada vez mais desesperada em busca de uma moeda forte. A indústria relojoeira mostrou-se uma importante fonte financeira. No seu auge, metade da produção de relojoeiros de Glashütte – então amalgamados no conglomerado GUB – foram vendidas a cadeias alemães ocidentais por correspondência. Porém, ao invés de ostentarem uma marca, os produtos da GUB, robustos e confiáveis, foram comercializados como produtos de marca própria dos varejistas, como por exemplo, a marca do grupo Schickedanz Quelle, Tchibo e de outras cadeias alemães ocidentais, ou então, vendidos com marcas pouco conhecidas, como Anchor.

Assim, segundo Reinhard Reichel, diretor do Museu do Relógio de Glashütte, os relógios da região foram vendidos, muitas vezes, a preços muito abaixo de seu custo de produção, pois a filosofia da Alemanha Oriental era produzir “relógios para as massas”. Outros relógios foram destinados a outros países socialistas “irmãos” da Alemanha Oriental, em outras partes do antigo bloco comercial Comecon.

Porém, apesar de suas ligações políticas e econômicas estreitas com a Alemanha Oriental, durante o governo comunista, os relógios Glashütte nunca foram exportados para a União Soviética. A razão era simples: após o fim da Segunda Guerra Mundial, os russos da ocupação exportaram o máximo que puderam da capacidade de produção de Glashütte, levando o material de saque de volta a título de “reparação de guerra”, uma justificativa repetida em toda sua zona de ocupação. O equipamento apreendido em Glashütte serviu de base para uma nova e vibrante indústria relojoeira russa. Mas também explica o motivo pelo qual os relógios Glashütte nunca tiveram demanda na União Soviética, o seu maior mercado potencial.

O isolamento propiciado pelo regime soviético obrigou os relojoeiros e ferramenteiros de Glashütte a desenvolverem soluções próprias. Antes do regime soviético, as fábricas importavam alguns componentes da Suíça, como as molas de balanço. Porém, a nova realidade os obrigou a ter uma produção autônoma, o que resultou no desenvolvimento de maquinaria especializada, ferramentas complicadas, ligas metálicas, rubis, e até mesmo soluções para iluminação do local de trabalho. Este dom para o improviso, pensamento criativo e ação por parte dos relojoeiros e produtores de ferramentas tiveram consequências positivas no futuro da produção relojoeira da região.

GLASHÜTTE APÓS A QUEDA DO MURO

Com a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã de 1990, Glashütte reassumiu suas antigas instalações, possibilitando seu retorno ao honroso mundo da Alta Relojoaria. Em 16 de outubro de 1990, logo após a reunificação das Alemanhas, o conglomerado comunista VEB Glashütter Uhrenbetriebe (GUB) foi privatizado pela agência de privatização Treuhand, tornando-se a Glashütter Uhrenbetrieb GmbH (Glashütte Watch Factory Ltd).

Esta empresa, uma sociedade limitada, passou a produzir relógios sob a marca Glashütte Original, remetendo propositalmente às origens da relojoaria da região, e refletindo o fato de que a produção continuou ininterrupta desde o início. A força de trabalho – antes em 2.500 funcionários – caiu para apenas 72 funcionários. A criação do “Karree”, um relógio de pulso retangular de Glashütte, marcou o relançamento da produção na região.

Relógio Karree, da Glashütte Original

Relógio Karree, da Glashütte Original

Em 1994, o núcleo de negócios de Glashütte foi vendido para Heinz Pfeiffer, investidor privado apaixonado por relógios, que se dedicou a modernizar as instalações. Seis anos mais tarde, a empresa Glashütte Original foi comprada pelo Swatch Group, e alguns outros investimentos se seguiram. Isto culminou em 2003 com a reestruturação da imponente sede, na qual um imponente átrio de 3 andares e piso em parquet criam o mesmo ambiente diferenciados de seus concorrente suíços, e enfatiza as tendências de luxo do grupo.

Logo ao lado, Walter Lange, o bisneto de Ferdinand Adolf Lange, cuja família foi desapropriada após a segunda guerra mundial, refundou a companhia de sua família. Nascido em Glashütte em 1924, e filho de Rudolf Lange e neto de Emil, Walter carregou em sua formação a veia relojoeira da família Lange, tendo estudado a arte da relojoaria em Karlstein, Waldviertel, Áustria.

Walter Lange em 1941

Walter Lange em 1941

Em 1990, exatamente 145 anos após a fundação da fábrica de relógios por Ferdinand Adolph Lange em 1845, seu bisneto Walter Lange, em conjunto com o executivo Günter Blümlein, registrou a companhia Lange Uhren GmbH, ressuscitando a marca “A. Lange & Söhne”. A primeira coleção de relógios de pulso da “nova” A. Lange & Söhne foi lançada em 1994. Gradualmente, a “nova” Lange se expandiu, comprando de volta muitas de suas instalações originais. Em 2001, a empresa retornou à sua sede original, construída em 1873 e parcialmente destruída no bombardeio de 1945.

A sede da A. Lange & Söhne

A sede da A. Lange & Söhne

Nos anos seguintes, outras companhias foram fundadas, como Nomos e Nautische Instrumente Mühle. Contribuiu para este crescimento o renascimento do interesse por relógios mecânicos.
Hoje, o vilarejo possui 13 empresas de relojoaria, incluindo marcas menores, como a Wempe, Nomos e Tutima. O nível de emprego atingiu 1.100 vagas. Como sinal de confiança, uma nova marca – Grossmann – foi registrada na região em 2009. Fundada por um relojoeiro local e financiado por capital suíço, a marca tem o nome de um dos dois empresários originais que acompanharam o Sr. Lange para o vilarejo. Sua nova fábrica está em construção.

Os relógios atualmente fabricados na região são:

  • A. Lange & Söhne
  • Bruno Söhnle Uhrenatelier Glashütte
  • Glashütte Original
  • Nautische Instrumente Mühle
  • NOMOS
  • Wempe Chronometerwerke
  • Union Glashütte

A história do vilarejo e todos os percalços da sua trajetória relojoeira estão documentados no Deutsches Uhrenmuseum Glashütte (Museu do Relógio de Glashütte). Inaugurado em 2008 na antiga e imponente Escola de Relojoaria do vilarejo, o qual ainda ocupa parte de suas instalações, e co-financiado por Nicolas Hayek e pela autoridade local, o museu é parte essencial de qualquer passeio pela cidade. Este museu não inclui somente os relógios feitos localmente ao longo dos anos, mas também oferece representações gráficas do impacto da tumultuada história alemã no principal centro relojoeiro do país.

Museu do Relógio de Glashütte

Museu do Relógio de Glashütte em 2008 (Antiga Escola de Relojoaria Alemã de Glashütte)